«(...) Para escrever De Profundis, Valsa Lenta, Cardoso Pires teve de se munir da protecção da surdez contra o canto da sereia da literatura. A difícil missão deste livro é narrar um acontecimento bio-"gráfico" até ao limite, bastante estrito, em que ele é narrável sem se entrar no território da ficção.
Todos os acontecimentos têm uma data e um local precisos. Este deu-se em "Janeiro de 1995, quinta-feira"(assim começa o relato), quando o José Cardoso Pires, ele mesmo, à mesa do pequeno-almoço, se começa a sentir mal e faz uma pergunta estranha à mulher -"Como é que tu te chamas?"- que lhe responde devolvendo-lhe a pergunta: "Eu Edite. E tu?". Resposta: "Parece que é Cardoso Pires".
Começava assim, no uso de indicadores linguísticos da alteridade, o "é" em vez de "sou", um processo que o levaria rapidamente à perda total da memória e, consequentemente, da identidade e de tudo aquilo que ela implica: A relação afectiva e intelectual com o mundo e com os outros, em suma, a razão e a paixão que comandam cada gesto e pensamento do ser falante.
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A sua narrativa, se não quer entrar no espaço da ficção (e mesmo os testemunhos alheios, exteriores, são usados com muita escassez e prudência) tem de se deter no limiar em que se começa a dar a perda da memória, da identidade própria e da linguagem (e, com esta, é toda a possibilidade de identificação do mundo que se perde) e só pode prosseguir a partir do limiar em que tudo foi perdido.
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O que emerge desta passagem é a ideia de que a experiência é sempre uma ficção, algo que alguém fabrica para si próprio: uma experiência não é qualquer coisa que muito simplesmente se produz, é preciso que seja narrada "a posteriori".
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Na verdade, só agora, no momento da narração, é que Cardoso Pires consegue aproximar-se do ponto em que todo o olhar reflexivo se tinha tornado impossível. Assim, aquilo a que ele agora chama "morte branca" nunca chegou a ser vivida como morte, qualquer que fosse a sua coloração. O que ressalta deste relato é a serenidade, a tranquilidade com que viveu a situação. A perda da memória, implicando uma perda das relações afectivas e uma libertação relativamente às determinações temporais, traz consigo a leveza, a inovação, a ausência de densidade e de angústia.»
GUERREIRO, António, "A morte branca", in Jornal Expresso, Lisboa, 24 de Maio, 1997