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Bambi
***This comment contains spoilers! ***
O livro trata da historia de Bambi, um cervo dos bosques do centro europeu, desde o seu nascimento até sua velhice. Uma sinopse não muito animadora, não é mesmo? Esse quê de novela realista, o que praticamente sempre torna a novela um saco, me deixou com medo. E o inicio de vocabulário infantilizado ... (continue)
O livro trata da historia de Bambi, um cervo dos bosques do centro europeu, desde o seu nascimento até sua velhice. Uma sinopse não muito animadora, não é mesmo? Esse quê de novela realista, o que praticamente sempre torna a novela um saco, me deixou com medo. E o inicio de vocabulário infantilizado, como se de um conto infantil se tratasse, me fez amarrar a cara. Estava começando a ler uma historia infantil do começo do século passado sobre cervos. Depois de tudo, ia me decepcionar.
Até que chegou o inverno.
O inverno, em contraposição ao verão no livro, é frio, maduro, cruel, seco, brutal. Uma mudança no estilo narrativo, sutil, porém presente, conseguiu me chocar como nenhum livro do Stephen King conseguiu. Nunca um vilão de um livro, nem Sauron, nem Voldemort, nem a Cuca me haviam causado verdadeiro horror antes. Antes dele.
Ele.
O homem é o centro argumentativo de Bambi, história de uma vida do bosque. Os cervos, assim como os vários outros animais
citados no livro, diversas vezes se reúnem durante o inverno, temporada de caça, sobre a figura mitificada, quase como um deus, do ser humano. Braços que cospem fogo, dentes gigantescos que prendem tuas patas, uma omnipotência implacável. Este é o deus-homem pela visão destes animais, sempre à mercê de sua ameaça, sempre perdendo seres queridos para suas garras, sempre tornando o inverno ainda mais terrível.
Mas, claro, nem tudo são temores. A primavera sempre acaba vencendo o inverno e o temor é atenuado. O autor, com grandes conhecimentos sobre fauna e flora, nos dá uma bela aula de biologia e biodiversidade, apresentando-nos diversos personagens e seus diferentes comportamentos animalescos, sempre cercados por diferentes tipos de árvores, flores e plantas. Nada exaustivo como uma descrição Tolkiana, o suficiente para sentir-nos ali.
Assim como a primavera dá lugar ao verão, o verão o faz ao outono. A passagem do tempo é o tema principal da história. Vemos como um cervo passa de uma infância, a tempos dura, a tempos agradável, a uma juventude de conquistas amorosas, lutas e aprendizado, até chegar a uma sábia e majestosa velhice, fechando um ciclo. O tempo e a morte estão presentes desde o segundo capítulo do livro, quando o pequeno Bambi vê, horrorizado, como um furão caçava um ratinho. E assim de maneira mais e mais brusca, ele vai presenciando outras mortes, naturais ou não, até o momento em que perde sua mãe. A partir deste ponto, com essa forçada passagem da infância à vida adulta, a morte é encarada de uma forme cada vez menos horrível, cada vez mais natural. Mais banal.
Este é o encanto de Bambi, história de uma vida do bosque, a capacidade de seu autor de utilizar animais falantes em uma novela e não transformá-la em uma fábula banal à la Os Três Porquinhos ou em uma sátira quase grotesca como A Revolução dos Bichos. Você acredita que se trate de verdadeiros animais, animais com o mínimo de qualidades humanas para identificar-nos. Tanto com eles quanto com seu medo, seu aprendizado, suas dúvidas, suas crenças e adversidades.
E, principalmente, para temê-lo como nunca antes o havíamos temido.